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terça-feira, 26 de junho de 2007

Lost In Ireland (I)

Finalmente, o relato das minhas aventuras e desventuras na Irlanda. Bom, a primeira parte pelo menos ...

Dia 0 - Preparativos
Como muitos de vocês devem saber, viajar em companhias aéreas de low-cost sai muito baratinho e tal, mas regra geral tem as suas desvantagens. A maior com que me deparei desta vez foi que o meu voo partia não de Lisboa, mas da cidade invicta. Muitos de vocês me dirão que não compensa. E têm alguma razão. Mas tendo em conta que a caminho do Porto apanhava a minha companheira de viagem, as contas não eram assim tão simples.

Assim, a minha viagem começou após um longo dia de trabalho, no momento em que apanhei o último intercidades do dia (ou noite) a caminho de Aveiro.

Dia 1 - Adaptação
Depois de uma noite curta, mas já com companhia, iniciou-se o primeiro dia de viagem. Aveiro-Campanhã, Campanhã-Aeroporto Sá Carneiro, Aeroporto Sá Carneiro-Aeroporto de Dublin. E foi aqui que as coisas começaram a ficar interessantes. Burocracias ultrapassadas e já com o nosso belo carrinho (um Toyota Yaris azul metalizado) nas mãos, estavamos prontos para partir ... ou então não.

Primeira dificuldade: sair do parque de estacionamento. Por mais mais avisos que eles tenham (e tinham mesmo: nos documentos, no para-brisas, pintados na estrada, em sinais de 50 em 50 metros, ...), conduzir pela esquerda mete uma confusão dos diabos. E se eu, o navegador, estava muito apreensivo, a minha companheira de viagem, a condutora, estava aterrorizada. Sair de Dublin foi um verdadeiro desafio aos nossos nervos e sangue-frio. Quando finalmente entrámos na autoestrada/estrada nacional foi um alívio! Olhando para trás, nenhuma das dificuldades que encontrámos depois chegou aos calcanhares da (primeira) saída de Dublin.

Seguiu-se uma viagem de 200 km para Galway, situada no lado oposto do país. Não há muito a dizer sobre esta primeira etapa. A preocupação maior era chegar a horas ao destino e, sobretudo, dar quilómetros à condutora para que se habituasse ao carro e às novas regras. De facto, sem este primero dia calmo, quase só de adaptação, não teriamos sido capazes de aguentar os dias que se seguiram.

À chegada, mais uma dificuldade: como encontrar uma pousada numa cidade desconhecida em que não há placas com o nome das ruas? Por fim, depois de muitas voltas e de perguntar a várias pessoas na rua lá a encontrámos. Bem simpática pelos vistos. Mas a cidade tinha ainda mais dificuldades preparadas para nós. A primeira coisa que nos disseram logo foi para não beber água da torneira porque estava contaminada. Nem sequer lavar os dentes, só mesmo para tomar banho. Parece brincadeira, certo? Mas não era. Tivemos de comprar logo dois garrafões de água no supermercado e na manhã seguinte lavámos os dentes com água mineral. Surreal, no mínimo, mas aparentemente a situação já se arrastava há alguns meses e ainda sem prazo de resolução ...

A noite foi sem dúvida o ponto alto do dia. Com a ajuda do pessoal da pousada, descobrimos um magnífico pub tradicional (cujo nome, se e quando me lembrar, ponho aqui) na parte velha da cidade, com música tradional ao vivo. E quando digo música ao vivo não estou a falar de uma banda. São os habitantes da cidade que se juntam por gosto nos pubs a tocar e a cantar, e a partilhar uma Guiness. Um ambiente verdadeiramente fenomenal. Não encontrámos igual em mais lado nenhum durante a viagem; A passagem por Galway, nesse aspecto, será sempre memorável.

Nota do dia: Placas Informativas - As estradas nacionais e regionais estão marcadas até à exaustão, mas descobrimos que nenhuma cidade ou vila do país têm placas com os nomes das ruas. Dublin é a (única) excepção a esta regra.

(continua)

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Cenas de Uma Despedida de Solteiro

Madrinha: Qual a anedota mais seca que ela já te contou?
Noivo: A do tubarão.
Amigo: A do tubarão?
Noivo: O que diz o tubarão para a tubaroa?
Noiva: Tu baralhas-me!
Amigos: (gargalhada geral)
Noivos: (beijo apaixonado)

Toda a sorte do mundo para vocês meus amigos. :)

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Um Pequeno Gesto

Como tantos trabalhadores por este país fora, tenho em cima da minha mesa um pequeno bloco-agenda. E, como tantos trabalhadores por este país fora, acabo por ter a minha própria agenda e não o utilizar. Assim, acaba invariavelmente por estar sempre com a data errada, uma vez que só de mês a mês é que me lembro dele. Não será portanto de espantar que tenha ficado surpreendido quando na semana passada reparei que ele estava na data certa. Mais: esteve na data certa todos os dias desde segunda-feira passada sem que eu lhe tenha mexido.

A resposta a este pequeno mistério é na verdade bastante simples. Ao que parece, a senhora que vem fazer a limpeza diariamente mudou recentemente e a nova tem por hábito avançar a página das agendas das pessoas aqui no escritório. É apenas um pequeno gesto, é certo. Não advém sequer daí nenhum proveito para mim, uma vez que eu não utilizo a dita agenda. Mudar a página da agenda não faz parte do seu trabalho, e de certeza que nunca ninguém lho pediu. Concluo portanto que o faz puramente por gosto ou atenção por quem aqui trabalha. E por isso não consigo deixar de sorrir. Porque é um gesto bonito e isso cai sempre bem, por mais pequeno que seja.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Barcelona

Diz o ditado que tudo o que é bom se acaba, e é bem verdade. Estas férias chegaram ao fim e Barcelona passou para o campo das recordações. E que recordações! Da primeira vez que visitei a cidade tive a oportunidade de visitar os locais mais emblemáticos, pelo que desta vez me mantive longe de algumas das atracções mais famosas, tal como a Sagrada Família e as Casas Milà e Battlò. Aliás, de Gaudi visitei apenas o Parc Güell, porque para mim ir a Barcelona sem o visitar é como ir ao Porto sem comer uma francesinha. Enfim, manias ....

Com a maioria dos grandes pontos de interesse já vistos, desta vez pude dedicar-me em pleno a explorar a cidade da forma que mais me agrada: anonimamente, entre os seus habitantes e longe dos turistas. É isso o que realmente me atrai e não tanto os museus e as atracções turísticas. Não que eles não me agradem; aproveitei para visitar alguns museus, tal como o Museu Picasso e a Fundação Miró, que me tinham escapado da outra vez; mas não andei a correr a cidade de museu em museu só para fazer número. Em vez disso gozei um solzinho bom na praia, sonhei acordado entre as árvores do Parc Güell e disfrutei de toda uma paleta de cores, sons, cheiros e sensações únicas nas ruas da cidade velha; e não trocava isso por mais 5 museus, por muito bons que fossem.

PS: As fotos da viagem estarão disponíveis em breve. Ainda não tive tempo para tratar delas porque tem sido uma loucura desde que voltei.

terça-feira, 20 de março de 2007

Alguém Acha Normal!?

Ontem ao pé da minha casa, e pela segunda noite consecutiva, um maluco qualquer lembrou-se de ir para a varanda a meio da noite e passar uns bons 10-15 minutos a uivar.

Se fosse noite de lua cheia eu até entendia o trauma, mas quem é que se lembra de ir para o meio da rua uivar numa noite de lua nova!?

segunda-feira, 19 de março de 2007

Crónicas do Autocarro 50 (II)

Ao fim de uma magnifica tarde de sábado a passear pelo Parque das Nações eu não desejava mais do que uma viagem curta e calma de regresso a casa. Tendo em conta a viagem acidentada do início da tarde, parecia-me possível que assim fosse pese embora o facto de estarmos a falar do Autocarro 50. As minhas esperanças esfumaram-se no momento em que no banco à minha frente, cara a cara, se sentou uma jovem brasileira, morena, alta, esbelta, com um top cor-de-rosa justinho e uma mini-saia de ganga capaz de fazer corar o Diabo.

Foi assim que o que deveria ter sido uma simples e calma viagem de 30 minutos se transformou numa verdadeira tortura. Durante quase uma hora (claro que tinha de haver um acidente na Segunda Circular precisamente àquela hora ...) tive de empregar toda a minha força de vontade e de concentração num difícil e extenuante jogo, que consistia em procurar alguma coisa de suposto interesse nos prédios, nas árvores, na estrada, no céu, no tecto do autocarro ... em qualquer coisa menos no contorno dos mamilos, nas pernas e na tanga preta da dita jovem.

E como se isto já não bastasse para fazer a cabeça em água a um gajo, a amiga (que ia sentada ao seu lado), também ela brasileira e ainda mais atraente apesar da sóbria t-shirt branca e das calças de ganga que trazia vestidas, veio a revelar-se bem mais atrevida do que ela ...

Sem Comentários

PS: A vida não está fácil para homens à moda antiga como eu ...

Crónicas do Autocarro 50 (I)

Tudo começou no momento em que decidi aproveitar a belíssima tarde que esteve aqui em Lisboa neste último sábado para passear no Parque das Nações. Foi assim que me encontrei sentado na parte traseira do Autocarro 50 com destino à Gare do Oriente, onde a acção principal desta crónica se desenrola.

Antes de mais, um pequeno aparte. Para quem não conhece, o Autocarro 50 da Carris atravessa a cidade de uma ponta à outra (de Algés ao Parque das Nações) sem nunca entrar no centro da cidade, e é lendário pelo facto de ser um palco privilegiado para a ocorrência dos episódios mais bizarros. As histórias do Autocarro 50 são quase um mito urbano e quem o utiliza assiste diariamente ao renovar da lenda. Mas voltando à história ...

No banco em frente ao meu, face a face, sentaram-se dois homens jovens, qualquer um deles com menos de 30 anos: um alto e muito magro, com uma camisa de meia-manga branca, calças de caqui, olhos esbugalhados e cheio de tiques nervosos; outro mais baixo e atarracado, com um fato de treino cinzento, bolsinha do Benfica pendurada ao pescoço, cara de cachorrinho triste e olhar perdido no infinito. "Só falta mesmo o casaquinho de pele de vaca para completar o quadro", pensei eu, lembrando-me de imediato do Tóni e do Zézé da Conversa da Treta. Mal sabia eu o que me esperava ...

Tipo do Fato de Treino: Amanhã tomo banho. (pausa) Tomei hoje de manhã ... e amanhã de manhã tomo outro.
Tipo da Camisa Branca: Ah ... eu não, troco só de camisa.
TFT: (depois de uma pequena pausa a olhar para o infinito) Eu não tarda já ando de calções! Até já disse à minha mãe e tudo.
TCB: (entre tiques nervosos) Pois ...
TCB: (depois de uma pausa quase salta do lugar a apontar pela janela) Olha, olha, é naquele prédio ali que mora o Ricardo.
TFT: Qual?
TCB: (ao mesmo tempo que apontava meio para a rua, meio para o céu) Então não estás a ver, aquele ali!
TFT: Ahhh ...
TCB: Da próxima vez que viermos a Lisboa vamos visitá-lo.
TFT: E podemos vir de comboio?
TCB: O quê?
TFT: Quando o viermos visitar vimos de comboio e leva-mo-lo a comer uma pizza. Ele gosta de pizza.
TCB: De comboio? (encolhe os ombros) Pfft ... então já não venho!
TFT: (depois de nova pausa a olhar para o infinito, aponta para o braço do outro) Olha lá, o teu relógio?
TCB: (agarrando o braço em causa com a outra mão) Não trouxe!
TFT: Então?
TCB: Arranca-me os pelos todos do braço!
TFT: Então, tu tens é de arranjar uma bracelete como a do meu (revelando o seu relógio do Benfica, com uma bracelete castanha suficientemente comprida para dar duas voltas ao pulso)
TCB: Pois. (pausa) O Pedro é que tem um em casa que não usa. (mais tiques nervosos) Quem me dera a mim!
TFT: Então mas fala com ele!
TCB: Pois ...

À nossa volta, várias pessoas riam-se à socapa e muitas outras faziam um esforço tremendo para não se desmancharem a rir. Junto ao Hipódromo no Campo Grande continua a conversa:

TCB: Olha! Olha! É aquele sítio dos cavalos! (desta vez salta mesmo do lugar a apontar pela janela)
TFT: Ah, pois é.
TCB: É aqui que a tua sobrinha anda, não é?
TFT: Não. Aqui só fazem saltos e ela só anda no ... como é que se chama? Aquela coisa em que eles andam à volta!
TCB: O picadeiro!?
TFT: Isso! Mas não é aqui, é lá para os lados de ... (longa pausa a olhar o infinito) ... é em Caneças.
TCB: Caneças?
TFT: Sim.
TCB: Eu já tive em Caneças! (meio exaltado) E não vi lá nenhuns cavalos!
TFT: Pois ... mas é em Caneças.
TCB: Hupf ... (pausa) então mas ela não faz saltos lá?
TFT: Não. Ela andava mas tinha medo dos saltos, e então desistiu.
TCB: Não entendo! Então se ela sabe andar, saltar deve é fácil. Não percebo porque é que ela desistiu!
TFT: Pois ...
TFT: (depois de mais uma pausa) Olha, vou ligar ao Ricardo!

E abre a bolsa que trazia pendurada ao pescoço, de onde tira um telemóvel antigo e uma velha agenda telefónica. O número não devia estar memorizado porque ele demora um bom bocado de volta da agenda. Por fim lá consegue fazer a chamada, mas não antes de se enganar uma vez no número:

TFT: Estou sim?
(...)
TFT: Estou a falar com quem?
(...)
TFT: Ahh, daqui é o João! (vira-se para o outro) É a mãe do Ricardo!
(...)
TFT: Pois, nós viemos cá almoçar. Comemos pizza!
(...)
TFT: Nós éramos para ir visitar o Ricardo mas como ele estava doente nós tivemos medo de apanhar ... enfim, alguma coisa.
(...)
TFT: Pois, mas nós tivemos medo de apanhar alguma coisa, e isso agora não dava muito jeito.
(...)
TFT: Pois, está bem, mas tivemos medo de apanhar alguma coisa.
(...)
TFT: (enquanto fazia um esgar de riso e olhava para o outro) Olhe, o Luís Carlos está a mandar cumprimentos! (o outro reage fazendo uma série de caretas e movimentos estranhos com as mãos no ar)
(...)
TFT: Pois ...
TCB: (em surdina) Acaba lá com isso que já estás a demorar muito.
TFT: Olhe, agora tenho de ir! Da próxima nós vamos aí visitar o Ricardo! (e após as despedidas da praxe desligou o telefone, ficando os dois a rir-se um para o outro)

Por esta altura já toda a gente à nossa volta se havia desmanchado a rir excepto eu e o meu pai (que eu tinha convencido a acompanhar-me e que estava sentado ao meu lado), que fazíamos um esforço tremendo para não nos rirmos porque estávamos sentados mesmo ali à frente deles.

Diz-me o meu pai que a conversa continuou nos mesmos moldes, mas eu já não registei mais nada porque a minha atenção foi desviada por um burburinho vindo da parte da frente do autocarro. Primeiro, surgiu uma mulher baixa e bastante gorda, talvez com uns 50 anos, cabelo espetado pintado de loiro e vestindo um casaco branco enorme que a fazia parecer um urso polar, e logo atrás um homem de óculos também para o gordinho, talvez um pouco mais novo que ela e vestindo uma camisa cinzenta aos quadrados:

Mulher: Já não há respeito! Já não há respeito!
Homem: Mas eu conheço-a de algum lado!? Cale-se mulher!
M: Parvalhão! (senta-se a dois lugares de distância de mim, o único lugar que havia disponível, e continua) Seu parvalhão!
H: Não percebo porque é que você se sentou aí! Esse lugar é meu! Você é que se meteu à minha frente e entrou primeiro! Esse lugar é meu! Você não tinha nada que se sentar aí!
M: (começando a rir-se que nem uma galinha) Seu palerma! Palhaço! Caixa de óculos!
H: Você já vai ver! É só chegarmos ao Parque das Nações e a gente já acerta as contas! Solto-lhe os cães!
M: Parvalhão! Dou-lhe uma cacetada nessa tromba que lhe parto os óculos, seu palhaço! Caixa de óculos!
H: Só se for com um chicote! Só se for com um chicote!
M: Seu parvalhão! Seu palhaço!
H: Sua frustrada! Eu parto-lhe mas é a ****! Frustrada!
M: (depois de mais uns insultos e com o punho cerrado no ar em jeito de ameaça) A gente já acerta contas lá fora!

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PS: 10 minutos depois de sair do autocarro eu ainda não tinha conseguido parar de rir e acabei eu também por passar por maluco depois de começar a rir às gargalhadas sem motivo aparente em pleno Centro Comercial Vasco da Gama.

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Residência Espanhola

Esta noite fui ao cinema ver o filme “Residência Espanhola”. Já não é um filme propriamente recente, mas para quem nunca o viu, trata-se da história de um jovem francês chamado Xavier que decide fazer Erasmus em Barcelona durante um ano e fica a partilhar um apartamento com mais meia dúzia de jovens na mesma situação.

Não vou aqui dizer que é um grande filme, porque não é. Mas é um grande filme para quem vai ou já foi em Erasmus. Enredo à parte, a maneira como os sentimentos e as experiências vividas pelas personagens são retratados é assustadoramente fiel à realidade, sobretudo na parte final que é o regresso a casa. E eu digo-o com conhecimento de causa.

E é por isso que o filme teve um impacto tão grande em mim. Não foi o Xavier que eu vi a passar por toda uma série de peripécias; de alguma maneira, de muitas maneiras, foi a mim próprio a viver as experiências por que passei em Copenhaga. E esse facto torna este filme especial para mim, independentemente de tudo o resto.

"Como voltar atrás quando no fundo do nosso coração sabemos que não há regresso?"

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

Cinzas e Fumo

Já vos falei aqui um pouco da terra do meu pai. Pois bem, há coisa de três semanas foi atingida por um grande incêndio. Não houve vítimas, nenhuma casa ardeu, mas a área afectada foi muito grande. Evitei durante algum tempo lá ir e tentei não pensar nisso, mas por fim fui ver pelos meus próprios olhos os danos.

Logo pela manhã dirigi-me ao vale mais próximo, que conhecia como se fosse a palma da minha mão, com esperança de que não tivesse sido tão mau como havia ouvido. Mas era. Logo à saída da aldeia tive dificuldade em reconhecer os caminhos que tantas vezes percorrera desde pequeno. Aqui e ali, pequenas zonas de um verde mortiço ainda espreitavam; tudo o mais estava chamuscado, queimado, partido, ... irreconhecível.

Comecei a sentir um aperto no peito mas decidi seguir em frente, tentando ignorar o cheiro acre a queimado que me começava a afectar os olhos e a garganta. Poucos minutos depois, do cimo de uma colina próxima, vinha a confirmaçãos da catástrofe. Diante de mim estava no centro da área ardida; chão coberto de cinza; pedras calcinadas espreitando aqui e ali; troncos queimados formando uma floresta de palitos negros até onda a vista alcançava; nenhum som para além do uivo do vento.

O coração caiu-me aos pés. Quis chorar. Quis gritar. Mas não consegui. Limitei-me a contemplar em silêncio aquele quadro dantesco, esmagado pela sensação de impotência que tomou conta de mim. Senti que parte de mim ardera também.

Um dia aquelas matas vão-se regenerar e voltar a ser verdes de novo, mas para mim nunca mais será o mesmo porque não mais me trarão memórias do que lá vivi. Suponho que tenha de aceitar isso ...

... por muito que me custe.

quarta-feira, 15 de junho de 2005

Hoje Olhei Para o Céu

Quando era pequeno olhava muitas vezes para o céu. Ia para a janela à noite e contava as estrelas que brilhavam muito acima da minha cabeça, procurando aqui e ali as formas das constelações que conhecia. E se era noite de lua cheia, corria para o lugar mais alto e aberto que encontrasse e olhava para a lua, imaginando se algures alguém estaria a fazer o mesmo naquele preciso momento.

Hoje já não olho para o céu. A vida passa a correr e nós corremos com ela, deixando tanta coisa por fazer porque não temos tempo ou simplesmente já não nos lembramos. Isso acontece muitas vezes com aquelas coisas da vida que tomamos como garantidas ... pequenas ou não.

Esta noite, enquanto escrevia, fui à janela verificar se o céu continuava lá, tal e qual como eu o havia visto da última vez. E estava. As estrelas e a lua não vão a lado nenhum, mas outras coisas que tomamos por garantidas poderão desaparecer se não nos lembrarmos de olhar por elas.

Hoje olhei para o céu ... e lembrei-me de como sabe bem olhar as estrelas.

segunda-feira, 13 de junho de 2005

O Voo da Águia

Fez precisamente ontem 3 semanas que no Estádio da Luz se fez a festa do título nacional de futebol, que escapava ao Benfica há já 11 anos.

"Quando chego ao estádio este está ainda quase vazio. Aqui e ali grupos de jovens e famílias procuram o melhor lugar para assistir ao espectáculo que se avizinha. No centro do relvado, em cima do palco improvisado os animadores prometem muita música e entretenimento noite dentro até à chegada da equipa. Nos ecrãs gigantes, vêem-se imagens da equipa a desfilar no Porto perante muitos milhares de adeptos.

Para gládio dos presentes, surge em campo a águia Vitória no braço do seu treinador, que se presta a dá-la a conhecer de perto ao público do 1º anel. Eu estava lá. Vejo-a de perto e toco-lhe, a ao meu lado um menino ao colo do pai faz o mesmo. Ainda me lembro do brilho nos seus olhos. Sem palavras.

Entre conversas com outros adeptos, o desfilar das bandas e os incentivos de apoio vindos do relvado, o tempo passa, e sem que ninguém se tivesse apercebido o 1º anel está cheio e começam a ver-se pessoas a subir, como formigas, para o 4º anel. Os animadores pedem então às bancadas gritos de apoio e procuram ensaiar a onda nas bancadas. Chega então Eusébio, o “Rei”, para se dirigir aos adeptos. Cada palavra é saboreada em delírio nas bancadas, e a saudação dos adeptos chega a ser arrepiante. O “Rei” sai comovido, esmagado pela emoção que vem das bancadas, e daí em diante não mais interessa realmente quem está no palco. A loucura cresce, embalada pela chegada de mais e mais pessoas que enchem agora também todo o 4º anel.

E então ouve-se a frase mais esperada: “Os nossos heróis chegaram à Luz”. O ambiente torna-se ensurdecedor. De seguida faz-se silêncio e uma criança grita “Vitória, vem!” O fumo dos foguetes impede o habitual voo, mas à segunda tentativa a águia Vitória desce desde lá de cima, em círculos lentos, até aterrar no relvado. Dentro e fora do relvado chora-se de emoção. Nas bancadas gera-se uma onda espontânea que parece replicar o voo da águia e 55 mil vozes explodem de súbito, em delírio absoluto. Senti-me pequeno. Nunca me havia sentido tão pequeno em toda a minha vida.

Um por um, os jogadores e equipa técnica entram em campo e todos gritam, pulam e deliram em palco. Depois vem o extravasar das emoções, com a quebra das barreiras de segurança e a invasão de campo."

A festa na Luz acabou ali mas por todo o país e um pouco por todo o mundo o título foi celebrado de forma efusiva por uma massa humana que esperou 11 anos ... pelo voo da águia.

As Marchas Populares

Tudo começa bem no topo da avenida, junto à rotunda do Marquês de Pombal. No centro da avenida, homens e mulheres fazem os últimos preparativos para a maratona que se aproxima, e mais à frente outros já desfilam: começou. Contornando as pessoas que se amontoam junto às barreiras, começo também eu a descer a avenida. De ambos os lados, filas de holofotes iluminam os participantes à medida que dançam e cantam avenida abaixo, vestidos a rigor para a ocasião e carregando estandartes e arcos pintados de mil cores.

Deste lado das barreiras um mar de gente avança distraída por entre vendedores ambulantes que vendem um pouco de tudo: garrafas de água e latas de cerveja dentro de baldes cheios de gelo, pacotes de pipocas, vasos com manjericos, sardinhas na brasa, balões de mil cores e formatos, ramos de flores e uma série de objectos luminosos de utilidade duvidosa. Por trás das bancadas, sentado na relva, um rapaz toca acordeão e a seu lado um pequeno chihuahua segura um cestinho na boca na esperança de receber algumas moedas: uma chamada à realidade no meio da alegria e da animação. Mais à frente, na principal área de actuação, onde todo o aparato das câmaras de televisão se concentra, aglomera-se uma grande multidão nas bancadas e fora delas. Em busca de um lugar mais vantajoso, muitos tentam a sorte trepando ... o que podem. Árvores, fontes, estátuas, caixotes do lixo, cabines telefónicas, bancos de jardim, outras pessoas ... tudo serve para se conseguir uma vista melhor.

Logo à frente, nos Restauradores, chega ao fim o percurso das marchas, mas um grupo de Cabo-Verdianos canta e dança, juntando um pouco do ritmo e espírito africano à festa. Começa então o regresso avenida acima, de volta ao princípio de tudo. Em sentido contrário, um grupo de foliões cantando em apoio à sua marcha desce a avenida acompanhando a progressão da mesma, e logo atrás vislumbram-se os noivos: 15 casais que escolheram casar neste dia sob a égide de Santo António. Atrás deles, as marchas continuam a descer a avenida noite dentro, para alegria de novos e velhos, que voltam ano após ano para assistir a esta festa e perpetuar a tradição Lisboeta.

sábado, 11 de junho de 2005

À Luz da Fogueira

O meu pai nasceu numa pequena terrinha perdida entre montes e vales, rodeada por pinhal até onde a vista alcança. Hoje em dia poucos elementos da família resistem por lá, a maioria partiu em busca de um futuro melhor noutras paragens. Muitos rumaram a Lisboa, tal como o meu pai depois de voltar da guerra, outros escolheram outros destinos. Mas quando eu era pequeno não era assim. Todos os anos eu e os meus pais íamos lá passar férias a casa da minha avó Maria, que teve e criou 8 filhos e filhas, e aproveitávamos para visitar tios, primos e sobrinhos.

Por vezes estas viagens ocorriam no pico do Inverno, e esses dias contam-se entre os mais frios de que tenho memória. O único sítio onde era possível encontrar algum conforto era a cozinha, onde ardia quase ininterruptamente uma lareira. Acontecia por vezes juntarem-se lá em casa outros familiares para jantar, e nessas noites aquela lareira tornava-se o coração da casa. Sentavam-se em seu redor em pequenos bancos de madeira, aconchegando-se como podiam contra as vagas de frio cortante que parecia entrar por todas as fendas e frinchas do chão e janelas, e falavam. Iluminados apenas pelo clarão ígneo do fogo, falavam sobre a vida, contavam histórias, lembravam o passado, discutiam o futuro. Murmuravam, numa ladainha contínua de sons que invocavam memórias, pensamentos e imagens, embalados pelo som das chamas e pelo crepitar da lenha. Assim me perdia eu do mundo, hipnotizado pela dança das chamas e das faúlhas, totalmente imerso num transe em que os sentidos pareciam acompanhar as batidas do coração, aguçando-se e esbatendo-se ao sabor das sensações.

Muito mudou desde então. De tanto que em tempos foi, restam apenas memórias difusas de criança, esquecidas e esbatidas pelo tempo. Mas no escuro, iluminado pelo clarão das chamas bruxuleantes e envolvido no seu rugido, os meus sentidos esbatem-se e as memórias vem ao de cima, e eu estou de novo lá, e à minha volta murmuram-se e sussurram-se palavras à luz da fogueira …